A vez de jovens senhoras

Décor Solidário vai revitalizar este ano centro cultural que atende mulheres em BH

Projeto vai entregar em outubro a sede do grupo Meninas de Sinhá, no Alto Vera Cruz, totalmente reformada e redecorada. Além de doações, iniciativa tem trabalho voluntário de arquitetos, designers, paisagistas, empresas e parceiros

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postado em 03/10/2017 13:15 / atualizado em 03/10/2017 13:51 Joana Gontijo /Lugar Certo
Marcus Silva/Divulgação

A aflição latente sobre o contexto mundial incerto e turbulento de hoje, que vê a tensão não apenas na realidade prática, e também parece um sentimento interno coletivo, não frustra muita gente que quer praticar o bem, independentemente de dificuldades. Pensar na necessidade urgente de uma mudança global, porém, beira o risco de perceber uma certa impotência e bloquear a ação, mas, trazendo para algo concreto, começa a crescer em cada alma generosa uma certeza que a diferença nasce mesmo das pequenas atitudes diárias. Afinal, às vezes, é simples fazer alguém feliz.

É esta a crença do Décor Solidário, projeto que chega em 2017 à quarta edição para revitalizar um centro cultural que atende mulheres no bairro Alto Vera Cruz, Região Leste de Belo Horizonte.%u200B Totalmente realizada através de doações e com o trabalho voluntário de arquitetos, designers e empresas, a iniciativa acha na decoração a força para transformar a vida das senhoras integrantes do grupo Meninas de Sinhá, que receberão a nova sede em outubro.

O projeto se propõe revitalizar instituições beneficentes e acaba estimulando o interesse de quem se espelha na causa e tem o desejo de colaborar. “No primeiro ano, nossa obra foi em um lar de idosas. No seguinte, reformamos um abrigo de crianças. Já em 2016, foi a vez de uma instituição que recebe mulheres em situação de violência doméstica. Agora, tínhamos o desejo de fazer algo na área da cultura. Foi assim que as Meninas de Sinhá cruzaram nossos caminhos”, resume a designer de interiores Fabiana Visacro, coordenadora e idealizadora.

As obras de revitalização vão contemplar todos os ambientes do imóvel, que ficarão prontos no próximo dia 18 - Marcus Silva/Divulgação As obras de revitalização vão contemplar todos os ambientes do imóvel, que ficarão prontos no próximo dia 18

As Meninas de Sinhá são reconhecidas pelo belo trabalho, que completou duas décadas de existência. As 22 mulheres, com idades em 54 e 95 anos, promovem shows, palestras motivacionais e projetos educativos, oficinas em várias áreas, e buscam resgatar brincadeiras e cantigas de roda. Têm em vista ainda aulas de fabricação de instrumentos e de música.

E a iniciativa conta com um apoio especial desta vez. O estilista Victor Dzenk desenhou uma estampa exclusiva para uma camiseta, com a marca do Décor Solidário, lembrando as cores e flores do grupo. “Esse gesto do Victor nos dá a possibilidade de permitir que mais pessoas contribuam com o projeto, adquirindo as camisetas. O valor arrecado será destinado para a execução das intervenções que faremos este ano”, explica Fabiana.

As obras já estão a todo vapor. São 11 ambientes que ficarão prontos no próximo dia 18, totalmente remodelados - memorial, pátio, jardim de entrada, fachada, sala de oficinas, sala de música, banho térreo e escada, área de serviço e banho superior, sala de atendimento, cozinha e sala administrativa. "Vamos entregar a casa reformada e decorada. Todos na entidade estão participando ativamente dos trabalhos e esse envolvimento faz muita diferença. Temos certeza que vamos atender a demanda e a expectativa delas", continua a designer.


Fabiana está responsável por um espaço que irá contemplar um pouco da história do conjunto. No Memorial Meninas de Sinhá, na área aberta do pátio, logo depois do jardim, haverá exposição de fotografias e poesias, distribuídas em paredes revestidas com desenhos que lembram as saias que as senhoras usam nos eventos que participam. A intenção é apresentar ao público, sejam empresas, possíveis patrocinadores ou quem tem interesse em conhecê-las, a trajetória dessas mulheres. "Procuro fazer com que as pessoas entrem no mundo delas, tenham uma amostra de sua experiência de vida. Há também equipamentos de som, para escutar música enquanto se aprecia os textos e imagens, além de instalações para a realização de shows e performances", descreve.

JARDIM

Para o jardim, a beleza das flores e do verde vai criar novos vínculos afetivos com o espaço - Marcus Silva/Divulgação Para o jardim, a beleza das flores e do verde vai criar novos vínculos afetivos com o espaço

No jardim de entrada, a premissa da paisagista Andréia Campolina é florir. No espaço de pouco mais de 16 metros quadrados, um pequeno corredor, as flores impactam pela graciosidade e o frescor da natureza. A parede adornada com uma composição de vasos de planta sai do convencional horto vertical e torna o ambiente ainda mais harmonizado. Em um pergolado, o teto verde convida ao bem estar. O piso será flutuante com acabamento em pedrinhas. "Mesmo com uma proposta mais simplificada, o conceito é humanizar, ter aconchego, leveza, alegria, abusando dos elementos naturais. Busquei sair do tom sério e sóbrio para encher de cores", diz a profissional. Para Andréia, participar do Décor Solidário é gratificante, principalmente pela oportunidade de colaborar com os outros e transmitir, no mínimo, alegria. "Por menor que seja a transformação, é uma troca de experiência e conhecimento, uma construção de amizade, o estabelecer de um relacionamento de respeito, um vínculo criado".

Valorização da Arte

Perspectiva da nova Sala de Oficinas: mais vida, cores e alegria - Divulgação Perspectiva da nova Sala de Oficinas: mais vida, cores e alegria

Na sala de oficinas, as designers de interiores Rosinha Houri, Anna de Matos, Erika Medeiros e a arquiteta Cida Teles querem oferecer às Meninas de Sinhá felicidade, afeto e vitalidade, valorizando a arte. Elas criaram a perspectiva de um espaço multimídia, que servirá para ensaios, reuniões, exibição de vídeos, oficinas de artesanato, com camarim, estar e até área de costura. O leiaute setoriza o ambiente ao mesmo tempo em que ele funciona de forma integrada. O teto ventilado e a luz natural proporcionam um clima ameno. Paredes brancas e mobiliários em tons mais clássicos conversam com pontuações de cor em fuxicos e chita. A paleta básica é composta por vermelho, verde, amarelo, e os materiais, na maioria, são reaproveitados e ecologicamente corretos.

O piso cimentício dá a segurança para evitar escorregões. O generoso sofá de canto, estruturado em paletes e estofado em lona bége ganha charme com as almofadas coloridas, enquanto chama para a convivência e o descanso. No camarim, buquês e cortina com aplicações em fuxico favorecem a atmosfera artística, junto a iluminação propícia para este tipo de proposta.

"No canto, teremos um lugar para máquinas de costura. É um recinto multi funções, incluindo uma zona de estar. Sobre o sofá, uma frase da fundadora do grupo é uma declaração que motiva. Na parede do fundo, avistada logo que se entra na sala, uma imagem delas dançando adesivada de fora a fora atrai o olhar. Em outra extremidade, uma prateleira para os troféus que as senhoras ganham por reconhecimento pelo trabalho", contam. Na entrada, uma estante de caixote serve de apoio para bolsas e objetos pessoais, bem como para acomodar as obras que elas assinam, além de suporte para um café. Nesse lado, uma prateleira alta recebe plantas e outros itens do grupo, em diálogo com um balanço removível que remete à infância.

Para as profissionais, alterar a decoração influencia diretamente na qualidade de vida, e é para isso que existe o Décor Solidário, frisam. "A arquitetura existente não era muito adequada para a necessidade delas, e agora vai ter um espaço específico para cada tipo de atividade. É um conforto não só físico, mas visual, comportamental, emocional. Estar em um lugar de que gosta é transformador e afasta até mesmo problemas de saúde, como a depressão. O objetivo é fazer com que essas senhoras se sintam pertencidas, estimuladas, tudo de acordo com o que elas almejam. Desta maneira, se sentem abraçadas, queridas, amadas. Ver que alguém se preocupa eleva a auto estima, e nos sentimos felizes por isso", comemoram.

Mudanças na decoração têm reflexo na qualidade de vida e na própria autoestima das senhoras do Meninas de Sinhá - Marcus Silva/Divulgação Mudanças na decoração têm reflexo na qualidade de vida e na própria autoestima das senhoras do Meninas de Sinhá

No projeto da cozinha, a atenção inicial da designer de interiores Fátima Gomes é para, sem quebradeira, modernizar o cômodo. A princípio, a troca da bancada principal, pequena e mal posicionada, otimiza as atividades. O novo local para preparo de alimentos foi colocado abaixo da janela, aproveitando a luz do Sol, escolhido em granito amarronzado. Há ainda lugar para cafeteira, cuba e torneira, armários e uma bancada extra vazada de apoio, amadeirada. Um balcão divide o ambiente, abrindo para dois fogões e uma geladeira. O armário para guardar itens de limpeza será plotado com a cor laranja. O azul claro na pintura da parede, também presente em detalhes no piso em tom tijolo, complementa a cartela em união ao alaranjado.

No projeto da cozinha, a ideia é modernizar - Marcus Silva/Divulgação No projeto da cozinha, a ideia é modernizar

"A ideia é ter um horizonte caloroso e hospitaleiro, já que é uma cozinha aberta, que não fica escondida, sem esquecer a eficácia e funcionalidade, e ainda gerar acessibilidade", diz a profissional, que participa pela terceira vez do Décor Solidário. "Em 36 anos na área, o projeto é a coisa mais fantástica que eu já fiz na vida. Ser solidário com alguém é uma recompensa. Não precisaria nem da minha assinatura. Ter algo bonito, bem feito, satisfaz só de olhar. É um prazer até subjetivo quando se tem conforto e entusiasmo em estar ali, ao contrário da bagunça, que gera incômodo".

Saiba mais
ORIGEM

Todos os dias, ela observava mulheres saindo do posto de saúde do bairro carregadas de remédios. Faxineira em um centro de apoio para menores, nos idos de 1980 e 1990, Valdete Cordeiro resolveu conversar com as senhoras, tamanho seu engajamento social, político e coragem, sem falar na altivez e renitência - uma líder nata. Depois da primeira impressão, veio a certeza de que elas precisavam de novos ares que não fossem apenas o labor doméstico ou a dedicação aos filhos e maridos. Precisavam cuidar de si. A ideia era resgatar a alegria em cada uma, conta a produtora do Meninas de Sinhá, Patrícia Lacerda, que atua no centro cultural há dez anos.

A partir daí, começaram os encontros do que seria o embrião do projeto. "Elas bordavam, faziam tapetes, brincavam de roda, passa anel, corre cotia, rouba bandeira, coelhinho sai da tocas. Sempre ao fim das brincadeiras pediam para cantar e, assim, aflorou o pendor para a música", rememora Patrícia. Em 1996, depois que já tinham passado muito tempo se apresentando em asilos, creches, escolas, praças, no carnaval ou em passeatas, elas resolveram mudar o termo Lar Feliz para Meninas de Sinhá, que agora já tem mais de 20 anos de estrada com este nome e reconhecimento no meio cultural, rendendo até premiações na área. Valdete faleceu em janeiro de 2014, não sem antes fazer do grupo um lugar saudável e bom para trabalhar. "Quando o povo se une, as coisas dão certo", costumava dizer.

Patrícia ficou conhecendo o Décor Solidário e logo entrou em contato. "Desejamos ter um lugar com a cara delas. O Décor Solidário valoriza o trabalho dentro da comunidade, dá respaldo. Não existe no aglomerado um lugar tão bonito como vai ficar o centro cultural depois da reforma. Está ficando tudo lindo, harmônico, delicado. É nos pormenores que se percebe como é simples ser feliz e se sentir acolhido e em paz", alegra-se.

Aos 71 anos, Bernardina Sena está no Meninas de Sinhá desde a fundação. Ela conta que adorou o Décor Solidário que, em suas palavras, vai tornar a sede no Alto Vera Cruz receptiva e aproveitada de forma eficaz, além da beleza, como mais um atrativo para a população local. Ela se diz ansiosa pelos resultados. "Sinto que teremos condições melhores de receber outras mulheres da comunidade que precisarem do nosso apoio. Com o lugar revitalizado, também espero que consigamos mais patrocinadores e voluntários, que vejam o grupo com interesse e queiram cooperar. Precisamos de ajuda de pessoas de bom coração. O centro auxilia quem precisa, como mulheres com tristeza profunda, e tenta levantar a autoesima, transformando e melhorando a qualidade de vida. Paralelamente, um espaço bonito dá mais prazer para trabalhar", declara Seninha, como é mais conhecida.

Os designers Filipe Bastos e Erika Medeiros, voluntários do Décor Solidário, vestem a camisa criada pelo estilista Victor Dzenk - Osvaldo castro/Divulgação Os designers Filipe Bastos e Erika Medeiros, voluntários do Décor Solidário, vestem a camisa criada pelo estilista Victor Dzenk
Na opinião de Fabiana Visacro, a importância maior do Décor Solidário é, através da decoração, mostrar o cuidado e o compromisso de cada profissional com o projeto e com quem vai usufruir o ambiente. "É um grande poder transformador, uma mudança de dentro para fora. Em um lugar bem feito, bonito, pensando para elas, se sentem merecedoras. Um espaço digno e que atende as diversas necessidades ajuda na logística do dia a dia, e possibilita até a introdução de novas atividades. As senhoras acabam se descobrindo capazes de fazer coisas antes impensáveis", finaliza.

Para quem se interessar em adquirir a camiseta e contribuir com esta causa nobre, pode comprá-la pelo valor de R$ 60, nos seguintes pontos de venda:

Ateliê Design: Rua Gonçalves Dias, 2.299, Lourdes
Villa Maria: Rua Bárbara Heliodora, 71, Lourdes
Torino Planejados: Avenida Professor Mário Werneck, 2.989, Buritis

Confira a lista de ambientes e profissionais do Décor Solidário 2017

Memorial Meninas de Sinhá - Fabiana Visacro
Pátio - Robson Hemerinck e Isabella Canaã
Jardim de Entrada - Andreia Campolina
Fachada - Eliana Braga
Sala de Oficinas - Rosinha Houri, Érika Medeiros, Anna de Mattos e Cida Teles
Sala de Música - Cláudia Zócoli, Deusicléia Horta e Luciano Costa
Banho Térreo e Escada - Silvana Mendes, Everaldo Ammorim, Laura Torres e Wesley Santos
Área Serviço e Banho superior - Roberta Cavina e Letícia Saldanha
Sala de atendimento - Filipe Bastos e Marcos Anthony
Cozinha - Fátima Gomes
Sala Administrativa - Cláudia Aragão, Alessandra Morávia e Adriana Morávia

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